O vento derruba, renova os ares e determina o sopro vital para cada ser, denominado na sapiência do homem moderno. A chuva arrasta, purifica e supre a sede de existência. De mãos dadas o vento e a chuva chegam. Ontem soprou forte nas paragens do sul e ao chegar da lida no ambiente da dor – mesmo ante a noticia recebida via telefone – os olhos não queriam aceitar a queda do arvoredo ilustre, que presenteou os moradores do terreno com seus frutos durante anos. Por diversas regiões o nome surge para apelidar a planta, mas é peculiar daqui chamá-la de “Mimosa”.
Foi ensinado de berço e assim seguiu. O tronco calejado pela ação de parasitas dos mais diversos – ainda que diminuta escora trouxesse com força os nutrientes do solo dividido, entre o gramado e o concreto da calçada – determinava o verde para as poucas folhas existentes na copada do ser decrépito. Os anos como sempre se tornam segundos, ou até minutos ante os fatos, e calcular naquele momento a existência da planta, seria como mensurar os grãos de areia do leito do rio. Apenas ocorria o apontamento e o meu devaneio a seguir e detalhar o agito dos guris, com as calças confeccionadas na máquina de costura Singer, onde a saudosa ascendente fazia com carinho, e na passagem do mês de maio, a abrir portas para o junho divisor do ano, os frutos da mimoseira brilhavam com o orvalho, a juntar-se a luz potente do matutino sol. O maduro fruto trazia a cor predominante – entre o amarelo e a laranja – e mesmo na fartura os galhos agüentavam firme a prosperidade da planta a encantar.
O gosto é indescritível, pois o lambuzo do quero mais nunca se preocupou com este detalhe. O interessante que mesmo no mais rigoroso inverno, a geada não danificava o fruto, e no mistério que a natureza determina ao homem, que é ela que sabe o detalhe dos momentos, o tom do laranja encontrava-se com o vermelho, a escurecer delicadamente e adocicar ainda mais a obra de arte divina. As edificações erguidas no terreno são precoces, mas a saudade não. A turbulência do tempo indicava um vento atípico, e mesmo no céu pedrento a se formar, seria chuva ou vento, no ditado perdido do observar. Foi assim que o sopro da madrugada derrubou um marco. Ah, mimosa saudosa, quanta lembrança que há... Naquela época de fartura sanhaços e saíras beliscavam aos poucos os frutos dos galhos, que ficavam fora do alcance das varas articuladas com ganchos para colher. Tentativas vãs e os pássaros alegres a nutrirem-se do caldo com o bico apropriado – não em forma de gancho – mas de tal maneira que lentamente saboreavam o sumo precioso da estação. No ano que passou a abastança já não refletia como antes, e os poucos frutos já pertenciam aos sabiás de plantão. Cadê o sanhaço? Cadê a saíra? Os pássaros eram outros e até o tico-tico aproveitava a distância do sabiá, e atomizava-se do resto oco, que a casca ainda retinha um ou outro gomo como fatia de pão. As trepadeiras não ousavam sufocar os galhos, mas estavam em grande quantidade presente no arvoredo. Sonolento e cansado encostei a magra – minha bicicleta – ao lado da casa da genitora, e passo a passo aproximei a avistar o acontecido.
Bem na divisa do caule com o solo a quebra acontecera. Um pequeno trecho ainda verde indicava que ali as raízes fortes traziam os nutrientes, pois o restante além de podre, carcomido e seco, não colaboravam a dar sustento ao ser. Era uma figura estranha tombada, e por incrível que fosse parecia ter vida. Era muito diferente do meliante que a pouco vira no ambiente da dor fenecido, e crivado de projeteis da arma que sentencia sempre o desfecho do kaos urbano. Tentei erguê-la. Não consegui. A força sumiu. Talvez pelo cansaço, mas nunca pela falta de força de vontade. E o meliante? Porque ninguém ergueu?No toque - da mão direita no tronco da mimosa e depois a mão esquerda - inclinei o meu tronco e observava a copada de um ângulo adverso. Já de joelhos notava a uniformidade e o desgaste. Levantei e andando no gramado cheguei mais próximo ainda, e o galho que achei nunca poder tocar, a mão levemente sentia as folhas ainda verdes. Que espanto passou na mente a subir no devaneio do presente e assim circulei toda a planta. Desci para o lar, mas antes de abrir a porta, tirei uma foto com o celular, alojando na memória a figura a detalhar. No microondas o horário assinalava 08h10min do ante meridiem e a fome sumira. Busquei minha caneca particular e após adoçar o café com leite padrão, deitei. Um rápido cochilo e um sonho veloz trouxeram outro ambiente. Ali o espírito caminhava ao encontro de uma semente a plantar a memória de uma mania típica, que o guri em mim nunca esquecera. Era a coleta de três folhas pela matriarca a benzer a ocasião, e na fé determinar que a fúria do tempo de céu pedrento, teria que ir para alto mar longe de qualquer moradia e serenar. Após o ato a cuia de cabaça aguardava mais folhas da mimosa saudosa para somarem-se as demais ervas do chimarrão matutino.
De repente vozes entraram em sintonia ao mundo dos sonhos, e sonolento os olhos preguiçosos abriam-se pouco a pouco. Calcei os chinelos pretos, e depois de lavar o rosto segui até a porta de casa, e abandonei-os sem perceber . Algo estava faltando. Sabia que a presença do arvoredo era a percepção. Subi e apenas ao lado via o tronco uniforme divido em dois, contrastando com a imagem alojada no meu celular. Os demais vestígios sumiram e a marca da quebra estava ali. As folhas verdes que não alcançava e tocava diante da queda ao chão da planta momentos antes, mostraram a importância de sonhar. Neste trecho notei meus pés desnudos e aumentando os passos segui até a frente do terreno. No muro a debruçar pensante fiquei e observei a outra mimoseira lutando para se manter em pé, no rápido gesto com a cabeça a virar-se. Qual semente fora plantada primeiro? Pergunta sem sentido e mesmo no fruto introvertido do verde esperança que olhei nesta planta, percebi que a outra não tinha. Por quê? Inúmeras questões nortearam minha mente a lembrar, e então aproximei, e colhi três folhas da mimoseira presente. Naquele gesto entendia os motivos dos atos peculiares das gerações e já próximo do “post meridiem” indaguei.
– Não é pesadelo a queda.
– Não é sonho as folhas que coleto.
– Mas é forte a saudade em meu peito, da mulher que nas chuvas de março nascera, e hoje deixa suas sementes como folhas benzidas a seguir seus ensinamentos...









